Minha experiência como Aupair na Alemanha

Foi há mais de 30 anos que tive essa experiência maravilhosa. Na época estudava alemão no Instituto Goethe em São Paulo, tinha apenas um alemão básico, e era totalmente fascinada pela cultura alemã. Tudo porcausa de um estudante alemão: ele fez um intercâmbio por um ano no Brasil, e enfim, acabamos sendo namorados. O namoro não deu certo, mas o gosto por tudo que vinha da Alemanha permaneceu em mim.

Uma amiga da faculdade, sabendo da minha história, me perguntou se eu queria ser Aupair na Alemanha. Ela conhecia uma família alemã em Kiel que amava o Brasil, e eles tinham o sonho de ter naquele ano uma brasileira. O contato com eles foi bem complicado, não havia internet, fazer ligação pra Alemanha era caríssimo, então foi tudo por carta. Escrevi uma carta pra eles com o meu alemão bem rudimentar e cheio de erros, e um mês depois a minha futura ‚Aupair Mutter‘ – a mãe das crianças – me mandou uma carta convite pra eu dar entrada no visto.

O processo pra retirada do visto foi bem demorado por eu ser brasileira. Tive uma entrevista no consulado alemão, testaram um pouco meu alemão, e depois disso me deram o visto. Tive que esperar uns dois meses até ter tudo pronto em mãos.

Na época o salário da Aupair era de 250,- DM, o equivalente a 125,-EUR hoje. A passagem de avião e o curso de alemão eu tinha que pagar do meu bolso. Em contrapartida a família me dava todo o mês um tícket de transporte, e é claro, eles pagavam também o seguro saúde obrigatório.

Quando eu cheguei na Alemanha e fui conhecer a família, tive um choque. Na casa onde eu ia ficar tinham 6 (!) crianças, e não apenas 3 como o combinado. Todas com a idades entre 3 e 10 anos. Explico: a irmã da minha Aupair Mutter estava de férias hospedada na casa dela, e no total tinham 13 (!) pessoas morando lá, incluido a avó das crianças.

Tinha um quarto só pra mim, mas eu dividia o banheiro (era um banheiro só pra toda a família) com todos. Apesar do primeiro choque, eles foram extremamente amáveis e pacientes comigo. Foi uma imersão total na cultura alemã, e aí eu vi que meu alemão era bem ruim…

Muitas expressões do dia-a-dia não estão nos livros didáticos. Um dia estava sozinha com a menorzinha – ela tinha apenas 3 anos. De repente ela me fala: ‚Ich muss mal‘. Eu traduzi na minha cabeça palavra por palavra: Ich = eu / muss = tenho/ mal = vezes. Não entendi bulufas! Aí eu perguntava pra menina várias vezes: você tem que fazer o que? E ela simplesmente repetia a mesma coisa: ich muss mal!

A tadinha estava desesperada, e no fim, ela pegou na minha mão, me levou pro banheiro, apontou a privada, e deu a entender que tinha que fazer xixi. Ah…ok! 😊. E assim, na porrada, fui aprendendo alemão.

Pra meu alívio, a minha Aupair Mutter sempre escrevia uma lista do que eu tinha que fazer. Em geral era passar aspirador, pendurar a roupa lavada e cozinhar algo rápido. Quando eu não entendia algo, era só pegar o dicionário. Um dia ela pediu para limpar o chão do banheiro. Eu fiz como no Brasil, enchi um balde de água e joguei tudo de uma vez no chão…mas….cadê o ralo? O chão não tinha ralo! Imaginem meu desespero pra tirar aquela água do chão do banheiro. E assim, mais uma vez na porrada, aprendi que as casas alemãs não têm ralo, eles passam um paninho úmido e pronto.

Outra coisa que me impressionava é que eu era realmente tratada como alguém da família. Eu almoçava junto com eles, e quando tinha algum jantar ou festa de amigos da família, eles sempre me levavam junto. Outra coisa legal é que eles permitiam que eu recebesse visita, e a minha visita era tratada também como alguém da família.

Eu sei que existem muitas histórias diferentes da minha, onde a experiência foi terrível, muitas Aupairs se sentiam escravizadas. Mas toda Aupair tem a possibilidade de trocar de família, caso haja problema.
Se valeu a pena? E como valeu! Sou muito grata por essa família pelo carinho e por tudo o que eu aprendi da cultura alemã. Tenho contato com eles até hoje.

 

Rosana
Author: Rosana

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